O autoral é político

Problemas de gênero nos quadrinhos

Quadrinho de mulher, quadrinho pra mulher, quadrinho por mulher… Expressões que se confundem na mente de editores, livreiros e leitores de uma forma bastante sintomática.

Gênero identitário acaba sendo tratado como se fosse gênero literário: “ser mulher” significa estar limitada a fazer quadrinho “de mulher”, e assim os livros de inúmeras autoras ficam confinados a seções especiais de obras femininas, sem que ninguém saiba ao certo o que significa exatamente uma obra ser feminina – como se toda obra “de mulher” fosse homogênea, como se toda mulher fosse igual, e como se os temas universais fossem para sempre reservados aos homens, sem que ninguém responda por que por exemplo a maternidade não seria um tema universal, apesar de estarmos todos aqui porque fomos paridos.

Foi Virginia Woolf quem perguntou, ainda em 1929, como seria possível refletir sobre a mulher e a ficção se a mulher sequer tinha acesso às condições materiais, financeiras e sociais para escrever: o “inconveniente fatal”. E foi em 1970 que Linda Nochlin perguntou por que não houve grandes mulheres artistas – por que era tão difícil identificar mestras icônicas das artes visuais, como Da Vinci, Van Gogh ou Picasso?

O pessoal é político: essa valiosa lição que o feminismo estadunidense dos anos 70 nos deixou pode sugerir, ainda hoje, práticas de resistência a partir de nossas vulnerabilidades, não muito diferente do pensamento por trás de zines e manifestos riot grrl artesanais que circulavam naquela época, antepassados incontestáveis de iniciativas como o Zine XXX, projeto de quadrinhos de autoras mulheres organizado por Beatriz Lopes em 2013, financiado coletivamente pela internet.

Judith Butler, a filósofa considerada bruxa em terras brasileiras, propõe que, em situações em que o protesto convencional é inviável, é a potência política da vulnerabilidade que pode trazer jeitos alternativos de resistir. A resistência pode estar nos atos mais simples, seja na decisão de uma mulher caminhar sozinha à noite e se expor a vulnerabilidades corporais, seja na recusa do nome morto (de “registro”) por uma pessoa trans – uma vulnerabilidade linguística ainda tão pouco discutida em sociedade e por vezes rejeitada até em espaços de diálogos feministas.

A resistência então pode estar – e está – na ponta do lápis de inúmeras autoras mulheres e pessoas de inconformidade de gênero. Não porque basta ser uma minoria de gênero para fazer quadrinhos revolucionários: afirmar tal coisa seria, mais uma vez, descartar a diversidade de autoras que por acaso têm um mesmo gênero em comum, e afirmar que todas as suas obras são iguais por consequência. Mas existem autoras que, com a lucidez de quem entende sua posição social no mundo, escrevem e desenham como se tivessem em mente os planos para a revolução, generosas demais para guardá-los à sete chaves como um segredo. Não, a revolução será compartilhada; será desenhada a várias mãos, coletivamente. 

Este foi um dos aprendizados tirados do trabalho da artista inglesa Una (“uma”, de muitas), autora do livro Desconstruindo Una, sobre suas próprias experiências e traumas da infância à vida adulta, permeada pelo desenvolvimento e cobertura midiática do estripador de Yorkshire. Longe de ser mais um trabalho que cristaliza o assassino como ícone midiático, Una se volta para as vítimas, sempre esquecidas e tratadas como números sem rosto nem nome. Atravessando um oceano, a obra de Una foi adotada por um grupo de teatro de jovens de Mauá, que pediu sua permissão para apresentar a peça publicamente. Una não apenas deu sua bênção ao espetáculo, como pediu apoio ao Council of Arts da Inglaterra para vir prestigiar a peça pessoalmente, além de promover oficinas e entrevistas no Brasil. Através de um livro, Una foi capaz de transformar o trauma em potência, influenciando diálogos sobre o complexo tema da violência contra a mulher através de continentes.

A equidade de gênero e o combate à violência contra a mulher são objetivos reconhecidos e defendidos por várias instituições e órgãos. Editais, eventos e concursos que incentivam a produção de mulheres são consequência de anos de luta do movimento feminista, em suas diferentes vertentes, filosofias e métodos de ação.

Mas esta equidade de gêneros se refere a que gêneros?

Se Virginia Woolf reconheceu um inconveniente fatal para que uma mulher pudesse se tornar autora, é preciso admitir um novo inconveniente particular para que uma pessoa trans possa, também, ter autoria.

Enquanto boa parte do movimento feminista está de braços abertos para que as mulheres trans sejam respeitadas, com toda a razão, como mulheres – pois elas o são –, pessoas transmasculinas frequentemente encontram-se num limbo. Designadas de sexo feminino ao nascer, pessoas transmasculinas encontram-se num espectro de gênero masculino, sem ser necessariamente homens. É um termo amplo que cobre uma variedade de gêneros identitários, como genderqueer ou gênero não-binário.

A trajetória de uma pessoa transmasculina intersecciona muitas vezes com o feminismo: seja pela socialização feminina misturada a inconformidades de gênero que se identifica com as pautas feministas, seja porque o feminismo de fato pertence às pessoas trans tanto quanto a qualquer mulher cis. Com a transição, pessoas transmasculinas se veem de repente isoladas de espaços aos quais antes pertenciam, enquanto que pessoas não-binárias com passabilidade feminina são continuamente invalidadas por colegas cisgênero ao serem consideradas mulheres como elas – ou seja, são colocadas no mesmo “balaio” de mulheres toda vez que uma feminista cis “esquece” da presença (ou existência) de uma pessoa trans no movimento, um tipo de microviolência raramente discutida nesses espaços.

Então transicionar acaba significando também abrir mão de toda uma rede de apoio e de inúmeros processos coletivos de resistência e criação – e a tendência é que isso se perpetue, enquanto estes espaços não tomarem para si o dever de refletir e agir sobre a questão, reconhecendo as diferentes facetas da violência de gênero.

A questão é recente e só agora começa a ser discutida fora de nichos LGBT+.  E uma possibilidade de como trazer essas questões em pauta para o público geral são as próprias HQs.

O trabalho do quadrinista Lino Arruda é talvez o que há de mais interessante sendo produzido agora nesse sentido. Artista transmasculino, seus quadrinhos abordam sua experiência como lésbica, como viado, a experiência da transição hormonal, e os encontros e desencontros com os tais “problemas de gênero”. Sua publicação foi financiada com o prêmio do Rumos do Itaú Cultural, desenvolvida aliada à sua pesquisa de doutorado pela Universidade Federal de Santa Catarina e pela University of Arizona sobre auto-representação travesti/trans* em zines latino-americanos.

Não foram os escritos de Judith Butler sobre vulnerabilidade que renderam a ela o título de bruxa, mas suas visões sobre gênero, em especial em seu livro “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade”. Interessante que a tradução do título original “Gender trouble” por si só já rendeu algumas discussões: afinal, que problemas são esses? E problemas de quem? Para quem?

Em um texto com mais perguntas do que respostas, sugiro uma única solução: que não pensemos sozinhos nesses problemas. Pois é possível desenhar, juntos, uma resposta.  

Texto originalmente publicado no portal Mina de HQ em dezembro de 2020.